História e Arte da Estância Turística de Ribeirão Pires - São Paulo
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As Artes e o Artesão 

No variado e maravilhoso mundo das artes, uma das áreas muitas vezes ainda incompreendida em sua dimensão e pouco valorizada nesse nosso Brasil carente é a do artesanato. O nome para alguns pode trazer à mente imagens de uma feirinha hippie, como foi no auge dos anos 70; talvez pensem em bijuterias, passatempo de idosos ou um trabalho improvisado feito com sobras e materiais pouco “nobres”, ou ainda de esculturas toscas de gosto duvidoso para enfeitar ou apenas garantir a sobrevivência de pessoas que estão à margem daquilo que concebem como “sociedade organizada”, esquecendo que esta se organiza em torno da cultura e da arte dos seus cidadãos. Embora parte disso possa ser o caso de alguns amadores ou aproveitadores que vivem à margem da vida, por assim dizer, há que se fazer uma enorme distinção entre estes e os artistas artesãos que, além de ter grande experiência, sensibilidade e visão, são profissionais talentosos que dominam inúmeras técnicas ancestrais e até industriais complexas, que requereriam cursos caros para se aprender, produzindo quase sempre obras de grande qualidade e valor com uma infinidade de materiais “nobres” ou não.

Jerônimo demonstra o processo de fundição na sua oficina
Jerônimo demonstra o processo de fundição na sua oficina

Este é o caso da maioria dos artesãos de Ribeirão Pires, vários dos quais vocês verão neste site, aqueles que possuem um trabalho dedicado e de qualidade. Entre estes destacamos como exemplo deste conceito, Jerônimo de Oliveira, 67 anos, que tem como pano de fundo a atividade de ourives e especialista em fundição de metais. Jerônimo aproveita de tudo em seus trabalhos, de sucatas a metais preciosos para criar todo tipo de coisa por concepção própria ou por encomenda, reproduzindo com fidelidade espantosa praticamente qualquer foto ou desenho de uma peça, materializando o desejo do cliente tridimensionalmente na forma de miniaturas como as de automóveis para coleções, réplicas de peças em tamanho real, belíssimos anéis e bijuterias originais, brasões e heráldica e o que mais se imaginar, nos mínimos detalhes com materiais que vão além dos comuns e conhecidos pelo público que visitar sua Casa do Artesão na recém inaugurada Vila do Doce, na praça Ernest Solvay, no centro de Ribeirão Pires.

bijuterias detalhadas feitas com metais reciclados
bijuterias detalhadas feitas com metais reciclados

Por falar em imaginação, imagine uma torneira velha. Imagine várias. Pense como transformar isso em belos anéis polidos e delineados com delicados desenhos feitos sob medida. Parece impossível não é? E é para o leigo. Mas para este artesão apaixonado por recuperar materiais dados como perdidos e compromissado com a urgente questão de pararmos de jogar lixo no meio ambiente, não é. É antes de tudo uma tarefa de amor e dedicação levada às últimas conseqüências: o resultado final. Essa torneira do nosso exemplo seria inteiramente recuperada, melhor dizendo, seu metal seria fundido novamente, seria depurado e usado para modelar um anel ou outra peça qualquer e poucos saberiam sua origem pelo acabamento dado à peça final. No caso de Jerônimo, tudo pode começar com um desenho, uma foto, uma arte escaneada para dentro do computador para um retoque ou contornos, depois com o desenho final impresso de forma simples o molde começa a ser esculpido à mão em cera especial, depois vem a fase da fabricação do molde em borracha de silicone, depois gesso, em seguida a fundição do metal escolhido que pode ser alumínio, ferro, prata, ouro etc. em altas temperaturas com um forno próprio, depois a forja que serviu para unir tudo isso para finalmente a peça ser retirada do seu molde e resfriada com todo cuidado e depois aparada e polida para o resultado final, um processo que pode levar dias ou meses dependendo da complexidade.

bijuterias detalhadas feitas com metais reciclados
bijuterias detalhadas feitas com metais reciclados

Essa dedicação a uma arte e a uma causa, a causa de desenvolver e solidificar a situação do artesão em nossa cidade, levou Jerônimo a lutar pela criação da primeira Associação dos Artesãos que foi finalmente fundada em março de 2007 tendo como primeiro presidente o próprio Jerônimo, uma associação de fato mas que mesmo assim ainda luta para garantir seu status de direito como representantes desta cidade que pretende ser cada vez mais uma Estância Turística. É oportuno lembrar que são os artesãos e também os artistas de outras vertentes que podem ajudar a cidade a ser um local turístico de fato e não apenas no nome, com suas obras e seus estilos únicos que darão a cara da cidade e dos que nela moram. Relegar isso a um segundo (ou terceiro!) plano seria como dar um tiro no próprio pé de apoio da cidade e uma demonstração de desrespeito à arte e à cultura de qualquer cidade como se esta fosse uma atividade marginal ou apenas algo para se usar quando convém. Ribeirão Pires vem crescendo e se modernizando com as idéias dos seus administradores de gestão em gestão e é essencial que os artesãos façam parte dessa fase da História da nossa cidade. Infelizmente, o Brasil, historicamente falando, tem obrigado muito dos seus artistas de modo geral e especialmente os dedicados ao artesanato, a sacrifícios e esperas prolongadas além de desgastes inteiramente desnecessários para sobreviverem de sua arte pela falta de apoio, respeito e condições mínimas de trabalho sem contar a eventual exploração de intermediários e a burocracia sem sentido. A vida em si já seria desafio suficiente para qualquer um sem isso, assim estes artistas merecem todo nosso respeito só pela lição de sobrevivência em condições adversas que dão diariamente, senão pelas suas obras. Fica então a sugestão para que industriais, empresários e autoridades patrocinem, adotem, apóiem, doem ou disponibilizem materiais e equipamentos a preços acessíveis, facilitem e viabilizem o trabalho dos artesãos, proporcionando-lhes incentivos, locais adequados para seu ofício e aulas, enfim, o apoio legítimo de que precisam, pois é deles também que sai a imagem de uma cidade e sua atividade não causa nenhum dano, muito pelo contrário.

lembranças da cidade
lembranças da cidade

Com o advento das preocupações ecológicas a atividade ganha ainda maior significado hoje, pois propõe de forma prática o reaproveitamento de uma grande variedade de materiais que sem isso iriam parar nos rios e aterros comprometendo de forma irreversível o que resta do nosso meio ambiente. Vivemos em tempos de se corrigir erros históricos onde estes reaparecerem e esta é nossa oportunidade, nosso privilégio e nosso mérito, se soubermos ver e aproveitar bem cada momento; momentos fugazes que serão registrados pela mesma História que registra o que fizermos hoje. Como seremos vistos pelas futuras gerações? Todos ouvimos e lemos a respeito desse tema do meio ambiente e tal, tão em evidência hoje pelo acúmulo de desmandos globais, mas não nos damos conta de que muito pode ser feito, de nossa parte na nossa cidade, começando por esse útil reaproveitamento das chamadas sucatas proposto por Jerônimo e pelos artesãos que compõe a Associação que conta hoje com 12 membros que trabalham com os mais diversos materiais que vão da madeira aos metais passando pela cerâmica, plásticos, vidros, pintura, biscuit e bordados. Um bom exemplo da cidadania e função social da arte unindo o útil ao agradável, para ao mesmo tempo alavancar um turismo legítimo, proporcionar uma elevação socioeconômica dos que vivem disso, gerando empregos, ministrar aulas saudáveis e ainda, de quebra, proteger o meio ambiente de mais poluição. O que mais se pode querer do artesão e do artesanato?

O trabalho de Jerônimo emprega bastante também o alumínio o que significa reciclagem para latas de refrigerante, a prata que também pode ser obtida da reciclagem de chapas comuns de raios-x, o ferro que pode vir de inúmeras coisas que jogamos fora, do plástico de embalagens e garrafas além de se aproveitar um sem número de pequenas coisas da natureza, freqüentemente desprezadas pelo observador menos atento. Tudo também é uma questão de bom gosto e discernimento na maneira como esses materiais devem ser usados na confecção de uma obra de arte para que seja mesmo isso: Arte.

Seus feitos como mestre da fundição e ourivesaria já atraíram a atenção da FEI, de um diretor do Museu do Cairo, da TV Cultura e da Rede Globo além dos jornais da nossa cidade, Folha de Ribeirão e MAIS Notícias que já o procuraram no passado recente para gravar matérias, colher depoimentos, fazer encomendas ou contratar aulas. Há muitos profissionais assim no Brasil, os chamados “engenheiros sem diplomas” que poderiam perfeitamente ensinar muitas coisas aos profissionais graduados de importantes universidades devido a sua larga experiência prática, vivência e bom senso profissional mas que preferem a vida pacata de seus ateliês, estúdios e oficinas onde tem a independência e o prazer de se dedicar às suas criações.

Três perguntas foram feitas ao artesão que sucintamente resumem a questão:

H&A: Como está o cenário para artesanato no Brasil hoje?

Jerônimo: Péssimo. Prefere-se comprar de outros paises ao invés de comprar os nossos artesanatos.

H&A: Quais os materiais que o senhor prefere para artesanato?

Jerônimo: Qualquer material que se pode reciclar, como uma garrafa PET. Fazendo-se dela uma flor, será uma garrafa a menos num bueiro.

H&A: De que forma um país deveria apoiar esse tipo de trabalho?

Jerônimo: Oferecendo mais incentivos e cobrando menos impostos porque o artesão trabalha com reciclagem e com os materiais que a natureza lhe oferece como folhas, galhos, frutos, cascas, raízes, pedras etc.

H&A: A equipe de História & Arte agradece muito a participação e tempo do senhor e deseja sinceramente que todo o trabalho de vocês seja reconhecido e valorizado pela população e pelos nossos governantes locais. Vida longa à Associação e à Casa do Artesão. Que venham as encomendas!


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